26/10/2026

Fim da Escala 6x1: O que os Empresários Precisam Saber

A Emenda Constitucional 141/2026 trouxe mudanças significativas na jornada de trabalho no Brasil. A principal alteração é a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, além da garantia de duas folgas remuneradas por semana, sem qualquer redução salarial para o trabalhador.

A implementação ocorrerá em etapas:

  • Dezembro de 2026: jornada máxima de 42 horas semanais.
  • Dezembro de 2027: jornada máxima de 40 horas semanais.
  • Duas folgas remuneradas por semana, sendo uma preferencialmente aos domingos.

Embora muitas regras ainda dependam de negociação coletiva e interpretações jurídicas, os impactos econômicos já merecem atenção.

 

Principais impactos para as empresas

1. Aumento do custo da mão de obra

Como não poderá haver redução salarial, o valor da hora trabalhada tende a aumentar. Consequentemente:

  • Horas extras ficarão mais caras.
  • Trabalho noturno habitual terá maior impacto financeiro.
  • Encargos sobre folha de pagamento deverão aumentar.
     

Apesar das discussões sobre o divisor aplicável após a redução da jornada, a tendência é a adoção do divisor 210 para a jornada de 42 horas semanais e 200 para a jornada de 40 horas semanais. Esse entendimento encontra respaldo no Tema 260 do TST, que consolidou a aplicação do divisor 200 para empregados submetidos a 40 horas semanais, reafirmando a tradicional Súmula nº 431.

Como a EC 141/2026 veda expressamente qualquer redução salarial em razão da diminuição da jornada, o valor da hora trabalhada tende a aumentar. Cria-se um efeito em cadeia: as horas extras habituais aumentam o valor dos repousos semanais remunerados e, por sua vez, essa majoração repercute sobre outras verbas trabalhistas, como férias acrescidas de um terço constitucional, 13º salário, aviso-prévio e FGTS, ampliando o custo total da folha de pagamento para as empresas.

Do ponto de vista empresarial, isso exigirá um esforço de adaptação e planejamento financeiro. Muitas empresas já estão revisando seus orçamentos e projetando os impactos para os próximos exercícios. A curto prazo, o desafio será absorver o aumento dos custos trabalhistas; a médio e longo prazo, o acréscimo será repassado aos preços de produtos e serviços, contribuindo para pressões inflacionárias e redução do poder de compra da população.

 

2. Impacto maior para quem trabalha com remuneração variável

Empresas que possuem empregados com remuneração variável baseada em:

  • Comissões;
  • Produção;
  • Percentuais;
  • Horas trabalhadas;
  • Tarefas ou peças produzidas;


devem sentir um aumento significativo dos custos, especialmente em razão da incidência dos dois repousos semanais remunerados.

 

3. Possível necessidade de novas contratações

Para manter o nível de produtividade, muitas empresas precisarão avaliar:

  • Contratação de novos empregados;
  • Reorganização das escalas;
  • Utilização de horas extras;
  • Fechamento aos sábados;
  • Investimentos em automação e tecnologia.
     

Setores mais impactados

Os efeitos tendem a ser maiores em atividades que:

  • Funcionam aos sábados/domingos;
  • Operam em turnos;
  • Dependem de horas extras frequentes;
  • Atendem o público continuamente.
     

Os impactos financeiros deverão variar conforme o segmento econômico e o modelo operacional de cada empresa. Em diversos setores, a redução da jornada acompanhada da manutenção dos salários tende a elevar significativamente os custos com pessoal. No agronegócio, por exemplo, as projeções são ainda mais expressivas. Segundo estimativas da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), o custo da hora trabalhada no campo poderá registrar aumento de aproximadamente 22%, exigindo das empresas maior planejamento para absorver os efeitos da nova legislação.

Como exemplo, considere um empregado mensalista com salário de R$ 3.000,00, sem adicionais que alterem sua base de cálculo. Na jornada atual de 44 horas semanais, o valor da hora normal corresponde a R$ 13,64, enquanto a hora extra com adicional de 50% alcança R$ 20,46.

Com a redução da jornada para 42 horas semanais, mantendo-se o mesmo salário, o valor da hora normal passa para aproximadamente R$ 14,29, elevando a hora extra para R$ 21,44. Já na jornada de 40 horas semanais, a hora normal alcançará R$ 15,00 e a hora extra R$ 22,50.

Na prática, isso representa um aumento de aproximadamente 10% no valor da hora trabalhada e das horas extras quando comparado o regime atual de 44 horas semanais com a futura jornada de 40 horas, impactando diretamente os custos das empresas que utilizam horas extraordinárias de forma recorrente.

 
E as empresas que já trabalham na escala 5x2?

Mesmo as empresas que já concedem duas folgas semanais não estão totalmente livres dos impactos.

Os principais pontos de atenção serão:

  • Redução da jornada semanal que passará para 42 horas a partir de dezembro de 2026 e para 40 horas em dezembro de 2027;
  • A necessidade de acordo ou convenção coletiva para viabilizar mecanismos de compensação das horas reduzidas ao longo da semana;
  • Readequação das escalas;
  • Aumento do valor da hora normal e da hora extra;
  • Necessidade de rever produtividade e dimensionamento das equipes.

 

Necessidade de negociação com os sindicatos dos empregados

Entre as possibilidades que poderão ser negociadas estão a compensação das horas anteriormente trabalhadas aos sábados ao longo da semana e a flexibilização da utilização da segunda folga remunerada. Em determinadas atividades, por exemplo, poderá haver modelos alternados de escala, permitindo o remanejamento dessa folga para a semana seguinte, desde que haja previsão em instrumento coletivo e observância dos limites legais aplicáveis.

Essa flexibilidade poderá ser uma importante ferramenta para que empresas e trabalhadores adaptem suas rotinas à nova realidade da redução da jornada, conciliando as necessidades operacionais do negócio com os direitos previstos na nova legislação.

 

Como a contabilidade pode ajudar

O contador será um importante aliado nesse período de transição.

Entre as principais contribuições estão:

Simulação de custos

Avaliar antecipadamente o impacto da nova legislação sobre:

  • Folha de pagamento;
  • Horas extras;
  • Encargos;
  • Necessidade de contratações.

 

Planejamento das escalas

Analisar alternativas de jornada para reduzir custos e manter a operação eficiente.

 

Apoio estratégico na tomada de decisão

Auxiliar empresários a escolher entre:

  • Contratar novos empregados;
  • Reorganizar processos internos;
  • Automatizar atividades;
  • Revisar horários de funcionamento.
     
Suporte documental e trabalhista

Acompanhar acordos coletivos, adequações contratuais e mudanças necessárias nos controles de jornada.

 

Conclusão

A redução da jornada de trabalho e a ampliação dos repousos remunerados representam uma mudança estrutural para as empresas brasileiras. Embora o objetivo seja aumentar a qualidade de vida dos trabalhadores, os reflexos financeiros e operacionais serão significativos para muitos negócios.

Por isso, o melhor caminho é se antecipar. Empresas que realizarem estudos de custos, revisarem suas escalas e contarem com apoio contábil e jurídico especializado terão mais condições de absorver os impactos, preservar a produtividade e manter sua competitividade nos próximos anos.

Autor(a) do post

Keila

Keila